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Sunday, 01 February 2026
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A Visita de Landau à África e o Foco Estratégico dos EUA no Mar Vermelho

Washington intensifica o envolvimento diplomático numa regiã

A Visita de Landau à África e o Foco Estratégico dos EUA no Mar Vermelho
Ekhbary Editor
2 days ago
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África - Agência de Notícias Ekhbary

A Visita de Landau à África e o Foco Estratégico dos EUA no Mar Vermelho

A diplomacia global está em constante movimento, e a recente digressão do Subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, por nações cruciais do leste africano e do Corno de África, entre 24 de janeiro e 1 de fevereiro, sublinha a complexidade e a interligação dos interesses estratégicos mundiais. Embora o Departamento de Estado norte-americano tenha enquadrado a visita como uma iniciativa para reforçar os laços bilaterais, promover as prioridades do Presidente Trump – que incluem o reequilíbrio comercial, a criação de um ambiente de negócios positivo e a promoção da segurança e da paz – a escolha dos destinos (Egito, Etiópia, Quênia e Djibouti) e o contexto geopolítico atual levantam questões mais profundas sobre os verdadeiros objetivos de Washington no Mar Vermelho e nas suas áreas adjacentes. Esta primeira viagem de Landau à região foi descrita por ele próprio como “um dos grandes privilégios” do seu cargo, permitindo-lhe dialogar com líderes globais.

A relevância estratégica do Mar Vermelho é inquestionável. Este corpo de água, que se estende desde o Canal de Suez até ao Estreito de Bab el Mandeb e ao Golfo de Áden, é uma das rotas marítimas mais vitais do mundo. Atravessa aproximadamente 438.000 km² e faz fronteira com algumas das regiões mais voláteis do planeta, incluindo o Corno de África, a Península Arábica e a margem ocidental da área Indo-Pacífico. A Organização Marítima Internacional (OMI) enfatiza que as suas águas constituem “uma das rotas marítimas mais críticas que permitem o comércio global e apresentam imensas oportunidades para o desenvolvimento e a prosperidade na região”. No entanto, a sua importância é acompanhada por uma instabilidade crescente, conflitos persistentes, pirataria e crime organizado transnacional – desafios que os EUA afirmam estar empenhados em combater.

O Mar Vermelho como Teatro Estratégico Interligado

A visita de Landau ganha um significado adicional quando se observa que três dos quatro países visitados (Egito, Quênia e Djibouti) são participantes da força naval multinacional liderada pelos EUA, destacada no Mar Vermelho para defender-se dos ataques dos Houthis, um grupo rebelde no Iémen. Esta coincidência não é meramente acidental. Como observou Charles Amo-Agyemang, professor sénior de política e relações internacionais na Universidade do Gana, “A visita sinaliza como os EUA veem a África Oriental e o Mar Vermelho como um teatro estratégico único e interligado”. Ele acrescentou à DW que “a escolha desses países não foi acidental. Foi deliberada, estratégica e consciente.”

A preocupação com os Houthis foi explicitamente destacada pouco antes da visita de Landau. A Embaixadora Tammy Bruce, Representante Adjunta dos EUA junto às Nações Unidas (ONU), referiu-se aos Houthis como uma “organização terrorista que, com o apoio do regime iraniano, representa uma ameaça contínua à estabilidade regional e à liberdade de navegação no Mar Vermelho e nas vias navegáveis circundantes”. Esta declaração sublinha a perceção de Washington de uma ameaça direta à segurança marítima e, por extensão, ao comércio global, o que justifica um reforço do envolvimento diplomático e militar na região. A presença de ataques a navios comerciais e petroleiros na rota vital do Mar Vermelho não só eleva os custos dos seguros e os prazos de entrega, mas também ameaça a cadeia de abastecimento global, com repercussões econômicas que se estendem muito além das fronteiras regionais.

Geopolítica, Segurança e a Competição por Influência

Para muitos analistas, a viagem de Landau à região do Mar Vermelho é mais do que uma missão de boa vontade; pode ser parte de uma estratégia mais ampla dos EUA para afirmar a sua dominação na competição geopolítica por influência global. Esta visão é reforçada pelas declarações do General Dagvin Anderson, Comandante do Comando dos EUA para a África (AFRICOM), que acompanhou Landau. Anderson enfatizou que a visita “significa a prontidão da América para ajudar a resolver ameaças na região do Mar Vermelho”. Ele detalhou as ameaças partilhadas no Corno de África, mencionando “ameaças do al-Shabaab, ISIS e uma coordenação através do Mar Vermelho com os Houthis a tentar desestabilizar a região”. A presença de múltiplos atores não estatais, juntamente com tensões interestatais, cria um ambiente complexo onde a intervenção de potências externas é frequentemente vista como um meio de proteger interesses próprios, além de contribuir para a estabilidade regional.

No entanto, a perspetiva de especialistas africanos oferece uma nuance crítica. O Professor Etse Sikanku, Reitor da Escola de Jornalismo e Estudos de Média da Universidade de Média, Artes e Comunicação do Gana, sugere que o momento da visita de Landau pode estar ligado a uma mudança nas alianças de poder globais. Sikanku observou à DW que “há o reconhecimento de que os EUA estão a perder o seu controlo dentro do continente e há uma certa ânsia de garantir que podem reinserir-se na relação global no que diz respeito à África”. Esta análise reflete uma preocupação crescente em África de que o continente seja visto como um tabuleiro de xadrez para a competição de grandes potências, em vez de um parceiro igualitário.

A competição entre os EUA e a China em África é um tema central nesta dinâmica. Charles Amo-Agyemang reitera que a África está “apanhada entre duas grandes potências”. Ele afirma que “os EUA pretendem manter uma posição estratégica apesar da presença crescente da China”, notando que nas relações internacionais, há “muito interesse neste tipo de rivalidade entre grandes potências”. A China tem investido pesadamente em infraestruturas e recursos naturais em toda a África, estabelecendo uma presença econômica e, em alguns casos, militar (como a sua base em Djibouti), que desafia o domínio histórico dos EUA e das potências europeias. Esta rivalidade não é apenas sobre recursos, mas também sobre narrativas, modelos de desenvolvimento e influência política.

O Papel da África e a Busca por Parcerias Justas

A União Africana (UA) tem defendido consistentemente que a África e os EUA podem construir uma parceria estratégica “fundamentada no respeito mútuo, interesses partilhados e um compromisso comum com a paz, a estabilidade e a prosperidade”. Esta visão reflete o desejo do continente de forjar relações que beneficiem os seus próprios povos e promovam a sua agenda de desenvolvimento, em vez de serem meros destinatários de ajuda ou peões em jogos de poder globais. Contudo, os especialistas estão divididos sobre se o continente pode realmente beneficiar deste renovado interesse dos EUA.

Sikanku sugere que as nações africanas devem reavaliar as suas relações com os Estados Unidos “em novos termos e de formas que também beneficiem o continente”. Esta perspetiva é crucial para garantir que qualquer parceria seja equitativa e sustentável. A história colonial e pós-colonial de África é marcada por intervenções externas que nem sempre serviram os melhores interesses dos africanos. Portanto, a exigência de termos novos e mutuamente benéficos não é apenas uma aspiração, mas uma necessidade estratégica para a soberania e o desenvolvimento do continente.

A visita de Landau, portanto, pode ser interpretada como um esforço multifacetado dos EUA para reassegurar a sua influência numa região globalmente crítica. Enquanto Washington procura fortalecer os laços e combater ameaças percebidas, a África enfrenta o desafio de navegar por estas dinâmicas de poder, garantindo que as suas próprias prioridades de desenvolvimento e segurança não sejam ofuscadas pela competição geopolítica. O Mar Vermelho, com a sua importância incontornável para o comércio e a segurança globais, continuará a ser um ponto focal de atenção internacional, e a forma como as relações entre as grandes potências e as nações africanas evoluirão nesta área determinará em grande parte o futuro da estabilidade e prosperidade regionais.