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Sunday, 01 February 2026
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DNU da SIDE: Sem Apoio Judicial, Oposição Intensifica Busca por Votos para Rejeição na Câmara dos Deputados

Decreto controverso que reorganiza a inteligência e permite

DNU da SIDE: Sem Apoio Judicial, Oposição Intensifica Busca por Votos para Rejeição na Câmara dos Deputados
Ekhbary Editor
1 day ago
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Argentina - Agência de Notícias Ekhbary

DNU da SIDE: Sem Apoio Judicial, Oposição Intensifica Busca por Votos para Rejeição na Câmara dos Deputados

Em um cenário de crescente tensão política na Argentina, a oposição intensifica seus esforços para reverter, no Congresso, um controverso Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) que promove uma reestruturação profunda na Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE). Diante da ausência de resultados favoráveis na esfera judicial, onde diversas ações foram rejeitadas, o foco agora se volta para a Câmara dos Deputados, onde a busca por votos para derrubar a medida se tornou uma prioridade. Este DNU, em particular, gerou alarme por incluir entre seus pontos mais polêmicos a autorização para que agentes de inteligência possam realizar apreensões de pessoas sem a necessidade de uma ordem judicial prévia, uma prerrogativa que levanta sérias preocupações sobre garantias constitucionais e o Estado de Direito.

A situação ganhou urgência com o vencimento do prazo de espera obrigatório na última sexta-feira, o que habilitou o decreto para tratamento direto no plenário da Câmara. Contudo, o governo, liderado pelo partido La Libertad Avanza, sinaliza que tentará postergar a discussão, ciente da dificuldade de obter apoio para a ratificação da medida. A estratégia governista pode passar por táticas dilatórias para evitar uma derrota imediata em um momento de fragilidade legislativa.

O Fracasso da Via Judicial e a Virada para o Congresso

A via judicial, inicialmente vislumbrada pela oposição como um caminho para frear o DNU, não produziu os resultados esperados. Recentemente, o juiz federal Daniel Alonso, da província de Entre Ríos, habilitou a feira judicial para analisar uma medida cautelar solicitada por um grupo de advogados ligados à União Cívica Radical (UCR), mas a rejeitou "in limine". O magistrado considerou que não havia uma ameaça "certa, concreta e iminente" e que as garantias constitucionais não estavam sendo vulneradas. Essa decisão reforçou a percepção de que a batalha legal seria árdua e, talvez, infrutífera no curto prazo.

Embora existam outros recursos de amparo apresentados por figuras de peso de diversas forças políticas, como a Coalición Cívica, o socialismo e organizações de direitos humanos como o CELS (Centro de Estudios Legales y Sociales), a maioria ainda não foi apreciada ou teve desfechos semelhantes. A rejeição da cautelar em Entre Ríos serviu como um sinal claro para a oposição: a solução para barrar o DNU deveria vir do âmbito legislativo.

Nesse contexto de impasse judicial, a oposição intensificou sua articulação no Congresso. "Estamos ativando. Não estamos longe", assegura um legislador opositor, expressando um otimismo cauteloso sobre as chances de sucesso na Câmara dos Deputados. A mobilização envolve diferentes blocos e setores políticos que, embora com nuances em suas críticas, convergem na necessidade de rejeitar o decreto.

Os Obstáculos Legislativos e a Falta da Comissão Bicameral

A Lei de Decretos de Necessidade e Urgência estabelece que, uma vez que um DNU ingressa no Congresso, a Comissão Bicameral Permanente de Trâmite Legislativo tem um prazo de dez dias para analisá-lo e emitir um parecer. No entanto, o prazo para este DNU específico expirou na última sexta-feira, e a comissão em questão, apesar dos reiterados pedidos da oposição, sequer foi formalmente constituída. A falta de assinatura da resolução para integrá-la por parte dos presidentes da Câmara dos Deputados, Martín Menem, e do Senado, Victoria Villarruel, é apontada como uma manobra para dificultar o trâmite e, por consequência, a eventual rejeição do decreto.

A norma também prevê que, passado esse prazo e na ausência de um parecer da Bicameral, qualquer uma das Câmaras pode levar o DNU diretamente à votação no plenário. Este é o caminho que a oposição pretende seguir. Contudo, o governo de La Libertad Avanza já argumenta que, em sessões extraordinárias, somente podem ser tratados os temas expressamente incluídos pelo presidente na convocatória. Sobre este ponto, como já noticiado por veículos como Clarín, há "bibliotecas divididas" entre juristas e parlamentares, e a interpretação que prevalecerá será aquela que conseguir mais votos no debate político.

A Contagem de Votos na Câmara dos Deputados

Na Câmara dos Deputados, a oposição assumiu a liderança na articulação. Para que o DNU seja rejeitado, seriam necessários 129 votos, considerando um plenário com os 257 deputados presentes. As projeções atuais da oposição indicam que eles estariam entre 122 e 123 votos, um número bastante próximo do objetivo. Essa contagem inclui os 93 membros do bloco Unión por la Patria (UP), 20 do interbloco Unidos (que agrupa Provincias Unidas, Coalición Cívica e Encuentro Federal), quatro deputados de Izquierda, além de legisladores "soltos" ou independentes, como a cordobesa Natalia De la Sota, o puntano Jorge "Gato" Fernández e a ex-libertária Marcela Pagano.

Há também um otimismo em "pescar" votos dentro da União Cívica Radical (UCR) e até mesmo do PRO, onde alguns setores não veem a medida com total aprovação. "Salvo a parte da apreensão, tudo bem", comentam fontes do PRO, indicando que a cláusula sobre prisões sem ordem judicial é o ponto mais sensível e que gera maior resistência interna. No entanto, os DNU não podem ser votados por partes; são aceitos ou rejeitados em sua totalidade, o que força os blocos a uma posição única.

As Críticas da Oposição: Necessidade, Urgência e Constitucionalidade

Além da contagem de votos, o debate central no Congresso não se restringe apenas ao conteúdo do DNU, mas também à sua própria validade formal. O Congresso deve se pronunciar sobre se o decreto cumpre, ou não, os requisitos constitucionais para sua emissão. A oposição argumenta enfaticamente que não houve "necessidade nem urgência" para seu ditado – emitido no único mês de recesso do Parlamento – e que "não existiu uma situação excepcional que tenha impedido o tratamento do tema pelo trâmite ordinário de sanção de uma lei". Este é um ponto crucial, pois a Constituição argentina limita o uso de DNUs a circunstâncias excepcionais que impeçam a tramitação legislativa comum.

Do ponto de vista político e substantivo, as críticas da oposição são ainda mais contundentes. Eles afirmam que o decreto outorga à SIDE "faculdades coercitivas incompatíveis com a ordem constitucional e o princípio republicano de divisão de poderes". A possibilidade de agentes de inteligência realizarem prisões sem ordem judicial é vista como uma ameaça direta às liberdades individuais e um desvirtuamento do papel da inteligência, que deve ser de coleta de informações, não de execução de atos judiciais.

Na semana passada, o bloco de Unión por la Patria organizou um encontro com diversas organizações sociais e de direitos humanos para discutir o tema. "Não houve nem há necessidade e urgência. Estes temas devem ser tratados a partir de projetos debatidos em profundidade", sentenciou o chefe da bancada, Germán Martínez, reforçando a posição de que a matéria deveria ter sido objeto de um projeto de lei submetido ao processo legislativo regular, com debate, audiências públicas e votação em ambas as câmaras.

A batalha pelo DNU da SIDE se configura, assim, como um dos primeiros grandes testes de força para o governo de Javier Milei no Congresso. A capacidade da oposição de articular uma maioria para rejeitar o decreto não apenas definirá o futuro da reorganização da inteligência argentina, mas também poderá estabelecer um precedente importante sobre os limites do poder executivo e a autonomia do poder legislativo em um país com uma complexa história de uso de decretos presidenciais.